Monólogo no elevador, joelho quebrado e papéis de carta.

A falta de tempo me impede de dizer algo mais significativo:
Hoje, quando estava no elevador indo ao parque, uma mulher de uns 70 anos entrou e já veio conversando, e eu, que estava com o fone de ouvido abaixei o volume, educada que sou, e ouvi o que ela tinha a dizer:
- Oi, bom dia, vai caminhar também?
- Pois é, vou sim.
- Ah, eu vou todos os dias porque operei a rótula do joelho (acho que a palavra que ela usou foi essa).
- Ah, pois é...
- Mas você não vai sofrer disso quando tiver minha idade, porque você já se exercita agora que é novinha. Ai, eu quando tinha a sua idade não fazia nadinha...Por isso estou assim, toda quebrada. Tchau! Bom dia!
- Tchau...

E assim se foi a velhinha... Eu não pude dizer muita coisa nesse diálogo que mais parecia monólogo. Mas fiquei com a frase dela na cabeça: "você não vai sofrer disso". Eu então fiquei pensando: falta tanto pra eu ter a idade dela... Mas logo depois essa minha certeza deixou de ser tão certeza assim. É que no caminho pro parque vi algumas menininhas trocando papéis de carta. Eu fiz tanto isso durante o recreio. E parece que foi ontem. E naquela época eu também pensava que estava muito longe o tempo de hoje.
Pois é, depois, passei o dia pintando pop art, recortando e imprimindo carinhas coloridas de atores do cinema antigo, lilás, verde água, mostarda.

Escrito por Cris às 23h54
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Momento professora do Chico Bento pra viver de arte.

Andei dando uma lida aqui na biografia do Amilcar de Castro. Vi que ele deu aulas por muito tempo. Fico percebendo então que não só ele, todos os artistas que conheço fazem o mesmo. Hoje, quando eu vinha pra casa dirigindo e pensando (eu adoro fazer isso) pensava: "achava que não gostaria de fazer mais nada na vida a não ser desenhar". Mas eu gosto, até que gosto de dar aulas. Descobri isso há alguns dias. Acho então que esse vai ser sempre o meu "projeto paralelo". Aquele que te viabiliza seguir com os outros projetos mas não é tão mal assim por estar em segundo plano. Afinal, quem é que pode viver só de arte no Brasil? Ah, claro, tem o Siron Franco. Mas eu não gosto do trabalho dele... Ei! E o que é que isso tem a ver? Ah, não me pergunta isso. O legal é que quando você dá aulas se vê meio que sem saída tendo que ler os livros que jamais leu, mas, que sempre quis ler. Comecei a hoje, finalmente, a ler o "Arte Moderna" do Argan. Decidi que vou ler aquela coisa inteira. Tim Tim por tim tim. Achava que só faria isso quando fosse uma velhinha e tivesse meus quadros expostos no Moma. Mas quando você é um professor você passa por uma rotina chamada "preparar aulas". Esse é o momento básico em que você vai saber o que vai dizer pros alunos no dia seguinte. E quando faz isso você acaba tendo que ler, ler muito. Será que é por isso que todo professor usa óculos? Sei lá, mas a professora do Chico Bento usava.



Escrito por Cris às 01h20
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Ainda sem muito refletir: Ainda Los Hermanos, Naif, Arte contemporânea, Crítica e Geraldo Souza Dias.

Eu adoro a palavra naïf, acho que talvez tudo que ela exprima não seja somente o que significa em português: ingênuo. Ser ingênuo é não usar nem uma parte de inteligência. O naif é ver o mundo de uma forma infantil, inocente, de encantamento, feito as crianças diante de tudo. É só essa visão que recupera uma tonelada de coisas que estão sufocadas pela contemporaneidade. Exemplo: a paisagem urbana. Mas... Voltando ao tema do post abaixo: Los hermanos. Li as letras do novo CD com atenção. "A gente se deixa guiar pelo afeto. Estamos só querendo fazer música bonita, que seja agradável pra gente tocar", diz Camelo. Essa é uma das frases dele que li em uma qualquer entrevista que achei aqui na net. E das críticas que li me lembrei sempre do embate que há atualmente entre arte contemporânea (entenda-se arte conceitual) e pintura. Dias atrás numa palestra (aliás, palestra perfeita) do pintor Geraldo Souza Dias, ele falava sobre a atitude das pessoas (artistas) diante do fato dele trabalhar com pintura. Ele contou que muitos artistas perguntam a ele "e você? ainda está pintando?" Tipo: "Ainda, não aprendeu a fazer outra coisa?"
É que ele, como pintor que é, não constrói mega instalações de papel de lixo com bolinhas de gude envoltas numa bula complexa escrita pra explicar a obra.
Enfim, esse embate entre pintura e arte contemporânea é bem parecido com o que andei lendo sobre as letras do novo CD de Los hermanos. Essa frase do Camelo diz tudo, e é bem naif, "fazer música bonita, que seja agradável pra gente tocar". É bem o que eu penso da pintura, e que também falou Geraldo Souza Dias. Se ele tem vontade de pintar uma marinha, ele pinta. Pinta o que lhe apetece. Sem complexos conceitos duchampinianos, e é aí que a crítica, me referindo agora à crítica de artes visuais, se irrita. Do que eles falarão ao ver uma marinha pintada? Não há o que inventar, a marinha não produz palavras complexas, conceitos relativos do nada pro nada. É apenas marinha: a cor, o azul, a pincelada.


Escrito por Cris às 07h23
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Confesso: Não refleti muito bem sobre o texto abaixo.

Um dia pretendo trabalhar com Crítica de Arte. Esse é um dos meus projetos de vida, ser uma crítica. Só que acho que a Crítica de Arte está toda errada desde sua invenção.

Los Hermanos, o novo CD: Li ontem no blog do PAS o que ele acha do novo CD da banda. O que ele discute é a melancolia das músicas. Acho engraçado, como é que pode se criticar negativamente a melancolia ou alegria de uma obra de arte? Acho isso uma total intromissão. É o mesmo que perguntar a Van Gogh: “Por que o senhor cortou a orelha?”

Ainda não ouvi o CD, (já passou da hora de ouvir, eu sei) mas tenho certeza, pelo que eu conheço da banda, que eles comporam felizes da vida aquelas músicas. Pronto. É isso que importa.

Eu quero ser uma Crítica de Arte. Mas acho que a Crítica de Arte está toda errada, desde sua invenção. Lobato e Anita sofreram. Tanto a criticada, quanto o crítico. É por essas e outras que acho que deveria se estipular uma regra para as críticas negativas. A regra seria mais ou menos assim:
Antes de começar uma crítica negativa o crítico deveria escrever o seguinte: “Essa é uma opinião totalmente pessoal. Você, leitor, pode pensar totalmente o contrário de mim, e nenhum de nós, nem eu e nem você, estamos certos, o único dono da verdade é o autor da obra.”

Pronto, acho que assim, todos seriam felizes para sempre.


Escrito por Cris às 23h36
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Dias sem blog, o tempo, mudança, prato cheio pra um flâneur, e, um texto seinfeldiano.

Será que vocês ainda vêm ao blog? Um bando de gente acessando pra conferir alguma coisa nova, e...Nada!

Tempo, essa semana eu vivenciei o quanto a falta de tempo é uma coisa irremediável. Irremediável. Acho que essa é a primeira vez que escrevo essa palavra. Já perceberam como existem algumas que nunca escrevemos? Não sei se pela minha dislexia, mas sempre que escrevo alguma palavra que nunca havia escrito acontece um estranhamento básico. Em compensação, tem outras que vivo escrevendo. Pois é, mas, voltando ao assunto, a falta de tempo foi mesmo o que houve nessa minha semana que passou. Eu pedia tempo pra encaixotar coisas, tempo pra preparar minhas aulas, tempo pra desenhar, tempo pra almoçar, tempo pra fazer ginástica, tempo pra ouvir música... Tempo pra atualizar o Ego Confession. Mas, ninguém me deu tempo. E, na verdade, quem nos dá tempo? O chefe? O carro? o semáforo? o Lula? Ou o William Bonner?

Numa semana em que você se muda de apartamento, quem rege seu tempo são as caixas. Caixas pra guardar os livros, os CD's, entulhos, croquis, telas, roupas que você usa, roupas que você já não usa. Depois, tem a chegada ao novo destino: Desencaixotar tudo, dobrar, guardar, encontrar espaço. E tempo, mais tempo pra tudo.

Gostei do meu novo quarto, tenho uma varanda inteira pra ver gente. Do alto do sexto, e último andar (vocês sabem né? em Brasília os prédios habitacionais só podem ter até 6 andares, coisas do Corbusierzim). Agora por exemplo, 3 da madrugada, e lá embaixo, no estacionamento do bloco, vejo alguns "transeuntes", um grupo de 5 pessoas, 3 mulheres e 2 homens caminham na direção de um outro bloco. Uma delas vai mais atrás, afastada do grupo. Ela parece deixada de lado enquanto todos os outros conversam felizes e enturmados. Já consigo até fazer uma análise da infeliz. Deve ser uma chata, papo repetitivo, ou, papo nenhum. Numa outra hipótese, ela é legal, mas os outros é que não são. Ou seja, os opostos não se atraem. Aliás eu sempre acreditei nisso: pra mim, os opostos nunca se atraem!

Mas isso é assunto pra outro dia. Vou dormir. Pois é, nesses dias nem tive tempo pra isso também. E já ouvi dizer que o sono é alimento. Eu sei que esta vista que tenho agora é prato cheio pra uma flâneur feito eu, mas, acho que até Baudelaire dormia.

Escrito por Cris às 02h31
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