Desde que comecei o blog tenho contado aqui nestes dois anos sobre o Olavo: minha personagem alter ego e que é tema da minha tese de mestrado. Acho que o blog foi um laboratório. Todo mundo foi com a cara do Olavo, e aqui foram publicados alguns dos desenhos e micro estórias da personagem. Nada mais justo que eu compartilhasse com vocês o Resumo da tese. Então, aí está.
Resumo
Olavo nas cidades: Registros de um flâneur.
Olavo é uma personagem criada a partir de um desenho. Compreendido a partir da figura do flâneur, cumpre o papel de alter ego, expressando as impressões e observações obtidas no momento de sua criação. Trata-se, pois, de registrar, a partir da criação de uma personagem, a paisagem urbana de diferentes cidades. Paisagens estas, muitas das vezes abafadas pela aceleração e pela urgência da urbe contemporânea. A deriva e o olhar contemplativo construíram a série de desenhos em que a personagem é a figura central, sendo que, para a concepção do trabalho, foram utilizadas ainda outras linguagens: literatura e fotografia. O olhar de estrangeiro – olhar de encantamento diante do novo – foi o que motivou e evidenciou a observação de diferentes cidades. Imagens pautadas por um tempo contrário ao da rapidez da contemporaneidade, produzidas pelo instante, este, capaz de criar novas paisagens. A série de desenhos Olavo foi criada em diferentes espaços urbanos: Espanha, Portugal, Brasília e o Bairro do Fundinho, compõe estes cenários.
Momentos decisivos, a caixinha de cacarecos da Emília, quase, quase pronta.
Não dava pra ficar sem registrar esses momentos decisivos: Em 2 dias a minha tese de mestrado vai estar pronta. Em dois dias ela vai ganhar liberdade. Foram dois anos inteiros de gestação e ela ainda me dá problemas: é nota que pula pra página errada, imagem que desaparece e o título que ainda não existe! São simplesmente 115 páginas de muitos problemas, (satisfações também, claro). São tantas teorias, conceitos, citações, idéias, idéias, idéias...Caixinha de cacarecos da Emília. Não sei como vai ser me despedir da tese, nem sei como ela vai se comportar na mão dos outros, tomara que se faça entender. São só 2 dias, dois dias e... Fim. Talvez eu sinta saudades...Mas só daqui alguns dias.
Reli hoje meu blog desde o início, uma olhada cronológica no histórico. Levei um susto! Percebi que confessei demais, o blog fez mesmo juz ao nome que tem, ainda que o poema do Ginsberg não fale sobre isso. Mas percebi que qualquer um que venha ao blog, vá ao início e volte, vai perceber minimamente quem sou eu. É claro que isso aqui não é um "blog diário", mas deixei uns rastros da minha personalidade. Levei outro susto! Percebi, lendo o blog, que nestes dois anos mudei muito pouco as idéias que tenho, constatei que sou super hiper tradicionalista, sou avessa a mudanças, voltei e "revoltei" sobre os mesmos assuntos. Falei mais de 10 vezes, mal muito mal, de arte contemporânea, falei mais de 20 vezes sobre arte de qualquer época, mais de 4 vezes sobre os mesmos filmes, só de The Sound of Music foram 3 vezes, as mesmas músicas, os mesmos músicos, sobre Seinfeld falei dezenas de vezes e sobre meus bichos também, meu gato Cassiano e minha cachorrinha Malu foram super expostos, coitadinhos. Também ando cada vez mais retrô, vide os posts sobre art déco e aquele em que eu mostro a foto dos meus óculos novos (estilo Jerry lewis). Outro susto! Percebi que quanto mais me afastava dos dias de hoje mais detestava os posts. Achei o início bobinho, mal escrito, chato, sem sal.
Mas enfim...Com blog não poderia ser diferente, é feito foto antiga da gente, gostamos sempre mais das atuais.
Depois do vendaval, fica ainda tudo quebrado, tudo espatifado no chão...Daí a gente arruma tudo, aos poucos, demora. E depois de um tempo, tudo arrumadinho, é só sossego. Então, a gente acha que nunca mais vai ventar, nem chover...É que a gente cola tudo com Super bonder. Mas começa a ventar, e a gente só fecha as janelas. O vendaval passa lá fora, longe da casa e de tudo colado com super bonder. A gente ignora, mas não adianta, o vendaval ainda existe, a chuva também. Um dia a cola vai acabar, a janela vai abrir...
Da mesma forma que Pollock, Ginsberg, Gauguim e Niemeyer dizem que amam.
Se Pollock estivesse hoje em Brasília, talvez não conseguisse pintar, quebrasse milhares de vidros em milhares de cacos, tinta espalhada em meio à Esplanada e mil cores expulsas pelos cinzas. Aquele guardinha sorriu! Do alto dos prédios em Nova York, Ginsberg estupefato olha as pessoas caminhando. Meras estórias sórdidas dos cheios de defeitos. Do alto dos prédios ele jogou sobre elas sua verdade. Mil olhares assustados azuis e verdes. Ginsberg já morreu! Se Pollock passeasse hoje por aqui, talvez pintasse assustado, imensos papéis canson cobertos de cinza em meio aos seus bocejos. Pollock já morreu! Se Gauguim estivesse hoje na Esplanada, talvez gritasse como louco: “Não viverei aqui pra sempre”. Mas ninguém cortaria as orelhas. Gauguim já morreu! Se Pollock estivesse vivo em Brasília, poderia ir até à Esplanada, à noite no Domingo tudo iluminado é lindo. E o guardinha sorriu. Pollock um dia disse que amava, tomou um enorme banho de tinta, vermelho espalhado pelo teto, pelo seu corpo, sobre o pêlo do cão, no outro dia uma enorme ressaca. Niemeyer se assustou com a caneta, croquis enormes espalhados sobre o plano. Depois, caiu-lhe tudo sobre a cabeça. Niemeyer está vivo!
As pessoas olham pra baixo. E apenas olham pra baixo.
Da varanda do apartamento, enquanto faço as sombrancelhas, ato meio privado, tirar sombrancelhas, assim, exposta na varanda. Mas é a claridade da varanda que ilumina o espelho, ilumina a pinça, ilumina a sombrancelha. É muito minucioso fazer as próprias sombrancelhas, qualquer fiozinho que saia errado pode causar um desastre. Da varanda enquanto me concentro vejo os passantes, a gente lá embaixo chegando ao prédio. É de manhã, 9, 10 da manhã. É cedo, e na comercial lá embaixo eles buscam pão, fazem cooper, levam cachorros pra passear. Todos passam pelas janelas altas do prédio. E então eu percebo: As pessoas olham pra baixo. Somente olham pra baixo. Elas sentem vergonha da janelas altas do prédio, quando se aproximam elas abaixam os olhares, tentam se esconder, se ajeitam, elas se sentem espionadas pelas janelas altas do prédio. Mas é tão cedo, só eu devo estar aqui, hoje, meio à toa, olhando minhas sombrancelhas. Mas as pessoas lá embaixo não sabem disso, porque elas não olham pra cima. Elas apenas se emborcam, e olham pra baixo.
Sonhei hoje com ruas da infância, de filmes e também de livros. Um beco fechado por uma porta imensa de ferro escrita “Terra de Siena”. (?????) Lá dentro havia cinco ou seis casinhas emparedadas de arquitetura eclética, porão alto, jardins laterais, e velhos, muitos velhos e crianças. Em frente às casas havia um terreno abandonado e em frente ao portão de ferro que escondia o beco, um museu. O beco anacrônico do meu sonho estava aqui em Brasília, era um lugar invisível saído de vários pequenos lugares. Os velhinhos se escondiam de Oscar Niemeyer, a porta de ferro protegia os moradores de Terra de Siena (???), e as casinhas ecléticas de porão alto e jardim lateral. Beco bucólico escondido em meio à retidão e monotonia dos blocos modernos.
Por que o João Gilberto não mora no Brasil? Por que as orelhas dos livros sempre rasgam? Por que o Andy Warhol usava peruca? Por que o Macunaíma era preguiçoso? Por que o John Malcovich só faz filmes de época?