Pensei em escrever sobre o desenho que fiz no canson branco. Nele, enquanto um espera outro tira a foto. O risco do vidro esconde a bicicleta de um outro, enquanto esse flutua sentado. O garçom do Café também espera o dia passar. Mas a bicicleta não anda, o homem que flutua não muda de lugar e o tempo não se move. Não foi a fotografia que parou tudo. Foi meu desenho. Pastiche de poema Dadá. Os três esperam.
-Ah, é mesmo linda, mas amarelo não fica bom em mim, prefiro cinza...
-E essa aqui? O rosa tá suuuper na moda, sabia?
-É linda mesmo, adoro rosa, mas acho que vai ficar grande em mim...
-Então dá uma olhada nessa calça, veste suuuuper bem, vai ficar ótima em você!
- Bonita mesmo, mas eu não tô precisando de calça, comprei umas quatro no mês passado...
Essa longa conversa que só leva ao caminho do equívoco.
Todo mundo está acostumado a esse tipo de conversa, esse é um exemplo básico de como omitimos o que verdadeiramente pensamos das coisas, e isso não acontece só quando tentam nos vender coisas que achamos horríveis, mas agimos assim em todas as situações da vida. Outro exemplo simples é quando nos convidam pra ir a um lugar que não gostamos e ao invés de dizermos a verdade inventamos que temos outro compromisso, ou que estamos cansados, tudo pra sermos gentis e não magoarmos a outra pessoa. Toda essa cultura da gentileza, que a sociedade vive hipocritamente, só faz com que as coisas sejam piores ou mais medíocres. Se ao invés de dizer que a roupa não nos serve, ou que já temos igual, disséssemos simplesmente que aquela roupa é horrível ou que não faz nosso estilo, tudo seria mais simples, menos estressante e geraria até menos cansaço mental, é justamente como li uma vez Tom Jobim dizendo: “essa longa conversa que só leva ao caminho do equívoco.” Algumas formalidades me cansam imensamente, e acho que já é hora de acabar com elas. Pelo menos um ano novo serve pra essas mudanças.
-Queria postar alguma coisa hoje, afinal é natal e essa data só acontece uma vez por ano. -Mas isso é tão óbvio... Todas as datas só acontecem uma vez por ano. -Pois é, vale um desenho. É mais ou menos assim que eu imaginava que ele fosse.
Mas em 23 de Dezembro?!? Isso lá é dia de um bebê nascer?! Já é natal! Eu sou médico mas também comemoro essas datas...
Ah, Doutor, não tem jeito! É hoje mesmo que a minha filhinha Cris Alcântara vai nascer! Aliás, o senhor bebe Coca Cola ou Guaraná Antártica?
Menos, menos, meu bem. Nós ainda estamos no final da década de 70, ainda não descobriram como saber o sexo dos bebês antes do nascimento, não adianta você escolher o nome...
Nascendo no natal.
Médico preguiçoso, não adiantou ele resmungar, teve mesmo que ir correndo pra clínica bem nas vésperas do natal. E na minha hiper atividade uterina, foi mesmo no dia 23 de dezembro que eu quis nascer. De acordo com a minha mãe: "-Ah, o médico não queria trabalhar naquele dia. Queria que minha filhinha esperasse mais uns dias pra nascer..." E segundo meu pai: "-Eu perguntei a ele se ele tinha o direito de escolher beber Guaraná Antártica ou Coca Cola, ele disse que sim, então eu disse que minha filha tinha escolhido nascer no dia 23 de dezembro, ora!"
Eu tento fazer com que meu blog não seja um extremo, nunca quis que ele se tornasse uma espécie de blog diário, como a maioria que existe por aí (me desculpe quem tenha um blog diário) e também tento fazer com que ele não seja um desses blogs intelectualóides frios e arrogantes (me desculpe quem tenha um blog arrogante). Assim, pra que meu blog não seja um extremo, eu mesclo dois lados. Enfim, estou escrevendo isso pra responder a pergunta de um amigo, que me perguntou como ele faria pra que seu blog desse certo. Aliás, nunca pensei nisso: por que um blog tem que dar certo? E qual o parâmetro de um blog certo? Mas tudo bem, mudando e continuando no mesmo assunto, passar batido pelo natal seria absurdo, por isso então agora entra em ação o lado "diário" do Ego. Não daria pra falar de natal teorizando com Nietzsche e Walter Benjamin. Eu adoro natal, aliás, acho tão "nietzscheano" não gostar de natal, que coisa mais blasé e introspectiva. Portanto, como eu acreditava em Papai Noel e não sou complicada, é bem mais fácil falar de mim e do quanto eu gosto dessa data. Então lá vai: O natal que mais me marcou foi um em que eu ganhei uma daquelas Barbies pra maquiar, aquelas que são só um rosto enorme e vem com um kit pra maquiagem. Meu irmão ganhou o Esquadrão classeA e o Comandos em ação, e eu e ele passamos as férias brincando disso. Antes do natal os presentes ficaram um mês escondidos no armário do quarto dos meus pais, e eu e meu irmão fingíamos não saber disso só pra eles terem a alegria de colocar no dia 24 os embrulhos perto da árvore. O mais absurdo é que eu e meu irmão fazíamos visitas diárias aos presentes, tipo abríamos o armário onde eles estavam escondidos pra ficar ali só olhando e tentando adivinhar o que eram. Coisa de criança doida, só pode. Mas aquele natal foi tão bom também porque eu me lembro da família enorme nessa época (ceia na casa do Tio Cid, do almoço no outro dia na casa da Tia Dica e da passagem de ano na casa da minha avó com a Tia Badia). Muitos amigos já me disseram detestar natal, sinceramente acho o tipo de comentário triste. Não dá pra fazer um tratado pseudo-intelectual sobre o natal, simplesmente porque essa data é lúdica demais pra isso.
Cuidado: Assunto melancólico (Não sei se interessa)
Tudo que vai se perdendo com o tempo me entristece. Esse ano - pesquisando sobre a catástrofe que é a conservação do patrimônio de edificações do país - eu percebi que com gente o final é parecido. Famílias simplesmente morrem, e quando somos crianças não podemos notar isso, mas com o tempo começamos a ver de perto esse fim. Morre avó, os tios, os primos. E aquela lembrança que existe na memória - dos domingos na casa da vó - fica nostálgica demais pra eu aguentar. O velório é o pior momento. Sábado eu vivi mais um desses instantes, reparei de longe as sobras do que era uma família "matriarcalmente imensa", coberta de história (parece que foi tudo pro espaço!). E como é que se conserva isso, a história de uma família? Com fotos? Vídeos? Um livro? Por mais que o homem ocidental se ache "evoluído" não tem coisa mais ritual do que um velório. O caixão com o morto no centro da sala, as pessoas em volta olhando, chorando, outras conversam assuntos variadíssimos, e algumas sorriem. Meu tio restante olha sozinho o irmão morto. E o último primo, tão velhinho, fica quieto num canto. Meu pai disfarça pra não chorar. Assim, o melhor da minha família paterna acabou, e minha avó agora deve olhar de longe. Ou de perto. Quem sabe.
Se todas as fotografias viessem com uma voz gravada contando sobre cada momento registrado, a voz da foto aí abaixo contaria mais ou menos isso: "Numa tarde chuvosa na Galícia, Espanha, um velho gordo passeia com seu cão. É verão, chove e faz sol ao mesmo tempo. Dentro do Museu está fresquinho, mas o velho não pode entrar, ninguém deixaria um cão passear em meio a arte. O professor grita: "o Museu é novinho, mas não é diferente dos outros prédios medievais." Eu então reparo bem e vejo que o Museu se difere sim das outras casas, ele não cheira a mofo. O velho se senta pra descansar com seu cão bem em frente a uma das paredes de pedra novinhas do Museu. Eu vejo que a cena é tão banal, daria uma boa imagem, então eu pergunto ao velho gordo galego se eu posso fazer pose pra foto ali do seu lado."