Uma conversa com Galvão Bueno sobre Olimpíadas e outros micro detalhes.

Caro Galvão Bueno, o senhor não me conhece, aliás, posso lhe chamar de você?
Pois bem, caro Galvão, te ouvi hoje durante a tarde na longa transmissão da Abertura Olímpica, você em mais um de seus ataques ufanistas. Saiba que o senhor repetiu por mais de 10 vezes a seguinte frase: "O próximo a desfilar é o Brasil, o próximo a desfilar é o Brasil, o próximo a desfilar é o Brasil!!!! Caro Galvão, dava até pra imaginar sua cara de entusiasmo.
Escuta, mas até que eu gostei da sua narração. Micronésia, eu não sabia que existia um país com esse nome, parece até nome de programa de computação. Calma Galvão, eu concordo com você, achei linda a confraternização mundial, todos os povos se abraçando, lindo, lindo. Só não entendi porque você se empolgou apenas com o desfile dos países ricos. O senhor passou batido pela Micronésia, pela Mongólia e até por Cuba!!! Assim é feio né Galvão?!
Ó, escuta, eu andei pensando hoje a tarde enquanto você falava...Sabe que existem pessoas assim feito o senhor, que eu conheço desde que nasci, e que fazem parte de um grupo de pessoas que parecem eternas, dinossauros perfeitos e infalíveis, protegidos pelo monitor da TV. Ficou curioso né? Olha só quem faz parte desse grupo, é só gente boa: Renato Aragão, Cid Moreira, Roberto Carlos, Pelé e Silvio Santos (aliás, o Sílvio envelhece ou é de borracha?)
Viu só, Galvão? É um grupo seleto, só gente boazinha, politicamente correta, irrepreensíveis.
Vocês nunca mudam, e as aberturas de Olimpíada também, aliás o mundo também não muda, e assim, a Micronésia vai continuar micro.

Escrito por Cris às 23h10
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No parque hoje


Três coisas se destacaram pelo parque grande, cheio, gente demais, pegadas demais. Ninguém se olha, cabeça torta, cabeça baixa. A seca esse ano amarela demais, o parque amarelo, o gramado sem graça, o nariz que arde, as cigarras que não param de gritar alto, alto demais, e as pessoas continuam caminhando, caminhando, quilos e kilos de tanta banha. E ossos também.

Escrito por Cris às 23h21
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Bressoneando


Então o auto retrato era feito: Rugas, restos de cabelos brancos, um rosto que olha, espelho. De frente a si, o velho, a ti, nos olhos vendo os olhos desenha, estranha, as rugas, os cabelos finos brancos. Ele olha, se olha, te olha agorinha e vê. Desenha. De frente dos olhos.

Escrito por Cris às 23h26
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Tentaram


Presa à praia a baleia imensa tentou, tentaram por ela.
Na UTI é a mesma coisa. A tia tenta, tentam por ela, e nada.
A baleia não nada mais e a tia não tenta mais.
Partiram hoje, a tia na UTI e a baleia na praia.
Pararam de tentar.

Escrito por Cris às 00h16
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Medos


Ponte JK- Brasília

Desde criança eu detesto ponte, ponte mesmo, aquelas sobre os rios. Acho lindo, mas só em cartão postal. Sei lá, é fobia, e esses medos ninguem explica. É o mesmo medo que algumas pessoas sentem de elevador, avião, piscina, etc, etc...No meu caso eu tenho pavor de dirigir sobre pontes. Mas aqui em Brasília pra ir ao Lago sul eu sou obrigada a passar sobre uma ponte. Na verdade posso até escolher, são três pontes indo pro mesmo lugar. Crio coragem e sempre passo pela menorzinha delas, mas mesmo assim morro de medo. Eu não sei o que acontece mas sempre tenho a impressão de que meu carro tá flutuando! Não é pra rir! Isso é sério! Mas tudo bem, eu agora já estou me acostumando. Inclusive eu fiz o que todo mundo tem me dito pra fazer, pra que eu passasse sobre a Ponte JK, ela é uma dessas três pontes, e é linda mesmo, no ano passado ganhou o prêmio internacional de ponte mais bonita do mundo. É monumental, e esse é o problema, ela é imensa! Por isso me disseram que se eu passasse sobre ela eu acabaria com essa neura de pontes e carros flutuando! Enfim, hoje a noite voltando pra casa eu tive coragem, e não sei se foi por causa daquela paisagem, mas eu não senti medo, sério, funcionou, acho até que é isso mesmo, se você sente um medo enorme de alguma coisa, tipo andar de elevador, vá amanhã pra um prédio bem alto e fique indo e voltando do último ao primeiro andar. Aposto que vai funcionar.

Escrito por Cris às 00h03
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Três diálogos sobre o mesmo tema...


Al Pacino em 'O advogado do Diabo'

"Eu estou aqui na Terra me intrometendo como quero desde que isso tudo começou. Eu sustentei cada sensação na qual cada homem se inspirou para ter! Eu me preocupei com o que ele queria e nunca o julguei. Eu nunca o rejeitei apesar de todas suas imperfeições porque eu sou fã do homem!!! Sou um humanista, talvez o último dos humanistas! Quem em sã consciência poderia negar que o século 20 foi todo meu?"
('O Diabo', Al Pacino em uma das cenas do filme "O advogado do Diabo")

"O inferno foi feito por Deus, e, por isso tem que ser bom enquanto coisa. Qual o bem que haveria no inferno? O bem que há no inferno é o da Justiça infinita de Deus. Portanto, de novo, tido o que Deus criou é bom enquanto coisa."
(Santo Agostinho no livro 'Contra Manicheos')

"O inferno dos vivos é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."
( Ítalo Calvino, escritor, no livro "As Cidades Invisíveis")

Escrito por Cris às 16h29
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O zen distante e frio.

Eu sempre começo os posts pelo título. E hoje é isso: O zen distante e frio. Agora há pouco eu fui a uma palestra dada num ambiente desses de Decoração, meio a "la Casa cor", sabem como né? Aqueles em que parece que não se pode tocar em nada, meio virtuais, mas perfeitamente lindos. Enfim, de agora em diante eu tenho que me acostumar de novo a isso e acho que vou ter até que começar a ler e comprar essas revistas, "casa vogue", "Decorare", etc...É que eu vou dividir minha vida agora em dois ambientes completamente diferentes, meu mestrado em Arte e o trabalho numa Escola de Design de Interiores. Enfim, foi nisso que me formei. Mas voltando ao zen. Uma palestra de um monge Budista dada num ambiente de Decoração e diferente do que eu tinha imaginado. O cara não era gordinho, nem careca e muito menos usava aquele vestido laranja. Disse que era meio monge e meio leigo. A palestra, como é de se imaginar, foi legal. Tudo que o Budismo fala é perfeito, o Budismo é mesmo uma filosofia, tão racional quanto a própria, aquela de Sartre e Kant. Entretanto, bem mais distante. Pra mim é impossível conseguir pelo menos 1% do que dizem os Budistas. E eu até já andei tentando. Meditação za zen, zen, yoga, "a pessoa deve viver no mundo, utilizar-se do mundo", viver o presente, esquecer o futuro e o passado. Tudo perfeito demais e por isso distante demais. Eu admiro os Budistas e acho que eles estão certíssimos. Acho que de todas as religiões, é do Budismo que o homem contemporâneo está mais distante. E engraçado, mas hoje olhando um budista falar naquele ambiente hiper decorado eu percebi como eles se parecem. Os Budistas e os ambientes milimétricamente projetados de Decoração. Perfeitos e meio distantes. Acho que isso é o que se diz sobre a tal da rapidez da contemporaneidade: Relacionar, misturar tudo, até mesmo coisas tão antagônicas.

Escrito por Cris às 23h22
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Use este assento como flutuante.

Até hoje eu não consegui entender porque é escrito nas cadeiras do avião: "Use este assento como flutuante". Que frase fatal essa, fico imaginando dezenas de pessoas flutuando no oceano, todas dizendo felizes umas pras outras: -Olha! E não é que a cadeira flutua mesmo!!!
Acho que 80% das pessoas quando lêem isso nos assentos sabem que não precisarão usar a tal cadeira flutuante. Mas essa é uma certeza que a gente nunca tem certeza. É óbvio que um avião pode cair, milhares já caíram, mas sempre pensamos que com a gente isso não vai acontecer. Esse meu assunto tá pessimista? Não, de forma alguma, mas hoje eu pensei muito, aliás como sempre, desde de manhã quando eu tava dentro do avião vindo aqui pra Brasília, e até agora, quando eu já estou aqui, nessa cidade utópica, longe da minha família e das pessoas que eu gosto. E qual a certeza que temos??? Nenhuma, temos somente a mesma certeza de que o avião não vai cair e de que não vamos usar a tal cadeira flutuante. Perdidos num oceano, um oceano metafórico em que todo mundo luta pra não se afogar em meio a um mar enorme de incertezas. E eu continuo pensando aqui, enquanto agora sinto saudades. Só saudade. Sem certeza alguma. Aliás, saudade é certeza! E não flutua...

Escrito por Cris às 23h52
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Dica

Hoje no Tábua de Frios o Gabriel Boêmio escreveu um texto perfeito em que ele fala sobre subversão e clichês. Mas de verdade ele está falando sobre falta de talento e enganação. Sobre a facilidade de se fabricar megas pseudo-talentos, facilidade essa que hoje em dia encontramos em todas as áreas da arte. Muuuuuito bom o texto do Gabriel, vale a pena ir ler: www.tabuadefrios.blogspot.com

Escrito por Cris às 23h55
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